Hoje, quando a sua empresa vende, ela recebe o valor inteiro. O imposto fica na conta por alguns dias, às vezes por algumas semanas, até a data de recolhimento. Nesse intervalo, aquele dinheiro paga fornecedor, cobre folha, segura estoque.

Ninguém decidiu que seria assim. É um efeito colateral do calendário fiscal, e boa parte das pequenas empresas brasileiras opera em cima dele sem nunca ter olhado para isso de frente.

O split payment encerra esse intervalo.

O que a lei já define

A Lei Complementar 214/2025 lista as formas de extinguir os débitos de IBS e CBS. Uma delas é o recolhimento na liquidação financeira, que é o nome técnico do split payment.

O mecanismo é direto: os prestadores de serviços de pagamento eletrônico e os operadores de sistemas de pagamento passam a segregar e recolher os valores dos tributos ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal no momento da liquidação da transação.

Traduzindo para o balcão: o cliente paga 100, o banco ou a adquirente separa a parcela do imposto e manda direto ao fisco, e a sua conta recebe o líquido. O tributo nunca chega a ser seu.

A lei prevê dois procedimentos:

  • Padrão: a operação é vinculada à transação de pagamento e os valores de tributo são identificados com precisão antes da liquidação.
  • Simplificado: aplica-se um percentual previamente definido sobre o pagamento, sem identificar o valor exato por operação, com acerto posterior.

Sobre a data. A LC 214/2025 não fixa cronograma para o split payment. Os detalhes operacionais virão de atos conjuntos do Comitê Gestor do IBS e da Receita Federal, ainda em elaboração. A expectativa do mercado é que o mecanismo entre em operação junto com a cobrança plena da CBS, em 2027, depois do período de teste.

Onde estamos no calendário da reforma

PeríodoO que acontece
2026Ano de teste. CBS a 0,9% e IBS a 0,1%, com o valor recolhido compensável com PIS, COFINS e outros tributos federais. Empresas que cumprirem as obrigações acessórias podem ser dispensadas do recolhimento efetivo.
2027PIS e COFINS extintos. CBS passa à alíquota cheia. IPI reduzido a zero.
2029 a 2032Redução gradual do ICMS com aumento proporcional do IBS.
2033ICMS e ISS extintos. O modelo dual, CBS mais IBS, em vigência plena.

Ou seja: 2026 é o ano em que a conta ainda não dói, e é exatamente por isso que ele existe. É o período para ajustar sistema, cadastro e projeção.

O que muda no seu caixa, na prática

Imagine uma empresa que fatura R$ 200 mil por mês e recolhe, digamos, R$ 20 mil em tributos sobre consumo, com prazo médio de 25 dias entre a venda e o recolhimento.

Hoje, essa empresa tem, em média, cerca de R$ 20 mil circulando em caixa que não são dela. Não é lucro, não é reserva: é imposto em trânsito. Mas paga boleto.

Com o split payment, esse valor deixa de existir no caixa. Não há aumento de carga tributária, e é importante frisar isso: a empresa não passa a pagar mais imposto. Ela passa a pagar no mesmo instante em que recebe.

O efeito é de uma única vez. Na virada, some da conta um valor equivalente a alguns dias de tributo. Depois disso, a operação segue normal, só que sem aquela almofada.

Quem sente mais. Empresas de margem apertada e giro alto, que dependem do intervalo para fechar o mês. Quem vende parcelado e recolhe imposto antes de receber a última parcela. E quem financia estoque com o dinheiro do tributo, prática mais comum do que se admite em voz alta.

E o Simples Nacional?

Também é afetado. A LC 214/2025 prevê regras específicas para o segmento, com tratamento diferenciado e a possibilidade de regime híbrido em determinados anos da transição.

Para o optante do Simples, a decisão relevante nos próximos anos deixa de ser apenas "qual regime paga menos imposto" e passa a incluir "qual regime funciona melhor no meu fluxo de caixa". São perguntas diferentes, e nem sempre a resposta é a mesma.

Cinco coisas para fazer em 2026

  1. Meça o float. Descubra quanto do seu capital de giro é, na verdade, imposto ainda não recolhido. Multiplique o tributo mensal pelo prazo médio até o recolhimento. O número costuma surpreender.
  2. Refaça a projeção de caixa sem ele. Se a projeção continuar fechando, você tem folga. Se não fechar, você acabou de descobrir um problema com dois anos de antecedência, que é o melhor momento possível para descobrir.
  3. Revise prazos. Prazo de recebimento do cliente e prazo de pagamento ao fornecedor são as duas alavancas que compensam a perda do float. Renegociar em 2026 é conversa; renegociar em 2027, aperto.
  4. Cheque os meios de pagamento. O split acontece na liquidação, então quem processa o seu recebimento passa a ter papel fiscal. Cadastro desatualizado em adquirente ou banco vira problema operacional.
  5. Acompanhe a regulamentação. Os atos conjuntos do Comitê Gestor e da Receita definirão o que hoje é indefinido. Quem for pego de surpresa não terá sido por falta de aviso.

O ponto que costuma passar batido

A discussão pública sobre a reforma tributária gira em torno de alíquota. Quanto vai pagar, se aumenta, se diminui.

Para a empresa pequena, porém, a mudança mais concreta dos próximos anos talvez não seja de quanto, e sim de quando. Uma empresa pode manter exatamente a mesma carga tributária e ainda assim quebrar o fluxo de caixa, se o momento do desembolso mudar e ninguém tiver refeito a conta.

Base legal e fontes

  • Lei Complementar nº 214, de 2025: art. 27 (formas de extinção dos débitos de IBS e CBS) e arts. 31 a 35 (recolhimento na liquidação financeira). Texto oficial no Planalto
  • Emenda Constitucional nº 132/2023, que instituiu a reforma da tributação sobre o consumo.
  • Materiais de acompanhamento da regulamentação da CBS e do IBS pela Receita Federal e pelo Comitê Gestor do IBS.